Música

Projeto evidencia o repertório de câmara brasileiro com características afro

Recital Olhares do Brasil 2 é atração na noite de hoje, no Conservatório de Música da UFPel, com entrada franca

Divulgação - Professora Daniela Moreira (centro) e alunos levam ao público composições dos séculos 18 e 20

A música brasileira de câmara, do século 18 ao 20, compõe o repertório do recital Olhares do Brasil 2, proposta de projeto liderado pela professora Daniela Moreira, da Universidade Federal de Pelotas (UFPel). A apresentação ocorre nesta quinta-feira (2), às 19h30min, no Salão Milton de Lemos do Conservatório de Música da UFPel. O evento tem fntrada franca.

O recital é ainda o último projeto de Daniela pela UFPel. Professora temporária das disciplinas de Canto e Seminário do Canto, a cantora encerra este ciclo com a Universidade e ruma para o Rio de Janeiro para se dedicar ao doutorado em Música Universidade Federal do Rio de Janeiro UFRJ.

O grupo de canto é formado pelos estudantes, Jhennifer Cardoso, Pedro Gonçalves e Dâmaris Domingues. A professora diz que os alunos são grandes cantores, que entraram na faculdade com um viés artístico e performático muito desenvolvido. "Fico muito feliz de poder levá-los tão cedo para o palco", diz.

"A Dâmaris está estudando como mezzo-soprano, então a gente está trabalhando com ela um repertório brasileiro que ela consiga explorar mais o som cheio que ela tem. A Jennifer é uma soprano com um timbre muito leve, muito bonito então estamos explorando um repertório que evidêncie esse timbre mais suave e o pedro Gonçalves tem uma voz que é perfeita para cantar repertório do século 20, mais romântico, inclusive algumas coisas da era do rádio.

Os pianistas são os alunos do curso de Piano Felipe França e Octávio Machado, que, além de acompanhar os cantores, vão interpretar a quatro mãos a composição Tico Tico no Fubá, de Zequinha de Abreu. Daniela explica que eles não foram seus alunos, mesmo assim foram chamados para fazerem parte da proposta. "São grandes músicos que somaram muito ao projeto", fala.

Machado vai ainda cantar em dueto com Daniela duas modinhas do século 18, marcando o início da música de Câmara brasileira. A professora comenta que as composições são raridades por terem esse caráter de dueto, algo difícil de se encontrar. As duas são de compositores anônimos.

Inspiração africana

Neste recital o foco do repertório está no compositor paraense Waldemar Henrique, alvo de estudos dos alunos no semestre passado, na disciplina de Seminário do Canto. "Mas vamos ter algumas coisas de compositoras mulheres, como Babi de Oliveira e Lina Pesce, cantadas pelas meninas. Eu também vou cantar", antecipa.

Outro compositor paraense Jayme Ovalle também está em destaque na apresentação. Segundo Daniela a proposta é dar ênfase ao repertório de câmara brasileiro com características da música de matriz africana, temática em comum entre os dois compositores. "É muito importante dentro da história da nossa música brasileira, que não seria o que é sem todo o aporte que ela traz das músicas de matriz africana. Neste recital tentamos trazer uma diversidade maior", fala.

As composições escolhidas, da segunda etapa do modernismo nacionalista, são de compositores que defendiam o quanto era importante valorizar a cultura negra para a música no do século 20, explica Daniela. "Tanto na obra de Ovalle, quanto na de Waldemar Henrique, por serem do Pará, a gente vê que eles tinham uma preocupação maior de trazer essas influências para mostrar a cultura negra sem uma ideia de 'purificar esse repertório'", lembra.

Segundo a professora, o modernismo nacionalista, no início do século 20, pregava que os compositores cultos deveriam pegar os materiais musicais de matriz africana e indígena e purificá-los para que fossem colocados de uma forma culta à população. "Eles pegavam questões rítmicas, mas modificavam, era só para dar uma cor das outras raças que formavam o Brasil, já o Waldemar Henrique e o Ovalle a gente vê que não", comenta.

O recital será finalizado com um tema de Waldemar Henrique, em quarteto. Daniela destaca que a composição tem características do maracatu e da religiosidade afro no Brasil. A escolha por esse repertório com forte representatividade da cultura afro-brasileira surgiu para mostrar ao público que essas composições precisam ser mais cantadas no Conservatório de Música, diz a professora, que, no doutorado, desenvolve tese com foco na prática vocal feminina de canção brasileira.

Desafio dos graves


O repertório de matriz africana é a própria Daniela quem vai fazer a voz principal, segundo a professora é porque ele exige uma voz mais madura. "Não é um repertório fácil. Esse repertório é um desafio."

Nesse repertório, Daniela, que é mezzo-soprano, escolheu fazer mudanças mais bruscas do registro vocal, ao sobressair os graves. Nessa parte do repertório o pianista Octávio Machado a acompanha fazendo uma marcação mais enfática ao piano para trazer o ritmo africano. "Optei por fazer uma troca mais brusca de timbre vocal quando vou para os graves, para ser algo mais forte, trazendo um pouco a ideia de algo ritualístico."

Serviço
O quê: recital Olhares do Brasil 2
Quando: quinta-feira (2), às 19h30min
Onde: Conservatório de Música da UFPel, rua Félix da Cunha, 651
Entrada franca








Carregando matéria

Conteúdo exclusivo!

Somente assinantes podem visualizar este conteúdo

clique aqui para verificar os planos disponíveis

Já sou assinante

clique aqui para efetuar o login

Secretária de Estado da Cultura faz balanço e projeto nova gestão Anterior

Secretária de Estado da Cultura faz balanço e projeto nova gestão

Um dia para esquecer um livro e estimular a leitura Próximo

Um dia para esquecer um livro e estimular a leitura

Deixe seu comentário